Canetas emagrecedoras vão acabar com a cirurgia bariátrica?
Medicamentos podem evitar a cirurgia em alguns casos. Para outros pacientes, porém, a bariátrica continua sendo fundamental
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A chegada de medicamentos cada vez mais potentes para o tratamento da obesidade mudou uma discussão que, até pouco tempo atrás, parecia ter uma resposta mais simples. Se as chamadas “canetas emagrecedoras” conseguem promover perdas expressivas de peso, ainda faz sentido realizar uma cirurgia bariátrica?
Para alguns pacientes, os novos medicamentos podem, sim, significar que uma cirurgia antes considerada como possibilidade deixe de ser necessária. Mas isso está longe de significar o fim da bariátrica.
Segundo o cirurgião geral e bariátrico André Augusto Pinto, da Clínica Gastro ABC, as duas estratégias não devem ser encaradas como concorrentes. Elas fazem parte de um arsenal de tratamentos para a obesidade e precisam ser escolhidas de acordo com o perfil e as necessidades de cada paciente.
“Mesmo com o avanço de medicamentos cada vez mais potentes para o tratamento da obesidade, a cirurgia bariátrica continuará tendo um papel fundamental.”
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Uma das mudanças provocadas pelos novos medicamentos já pode ser percebida nos consultórios. Segundo André, uma parcela dos pacientes consegue alcançar a perda de peso esperada com as canetas e, com isso, pode não precisar mais ser submetida à cirurgia bariátrica.
É uma mudança importante no tratamento da obesidade. Com um arsenal terapêutico maior, alguns pacientes podem conseguir controlar a doença sem precisar chegar à cirurgia.
Mas existe uma questão fundamental nessa equação: o que acontece no longo prazo?
“O grande desafio, nesses casos, é manter o peso desejado a longo prazo.”
Segundo o especialista, estudos mostram que, após a interrupção das canetas emagrecedoras, os pacientes podem apresentar reganho de peso rapidamente. Em alguns estudos citados por ele, após seis meses da suspensão, já é observado reganho significativo. Por isso, em alguns casos, pode ser necessário utilizar doses de manutenção por períodos prolongados, possivelmente por toda a vida.
Ou seja: conseguir emagrecer com a caneta não significa necessariamente que o tratamento terminou.
Apesar dos resultados alcançados pelos medicamentos mais recentes, a cirurgia bariátrica continua sendo uma das ferramentas mais efetivas disponíveis para determinados grupos de pacientes.

Segundo André, a perda de peso com a cirurgia pode chegar a aproximadamente 40% do peso inicial após cerca de um ano. Com as canetas, a resposta é mais variável e depende também da dose utilizada. Além disso, há pacientes que não apresentam resposta adequada às medicações e não atingem a perda de peso esperada.
A diferença, porém, não está apenas na balança.
A cirurgia bariátrica também é um procedimento metabólico. Segundo o cirurgião, em pacientes com obesidade e doenças associadas, ela apresenta benefícios metabólicos importantes e pode ser mais efetiva no controle de condições relacionadas à obesidade. Entre os exemplos citados pelo médico estão hipertensão arterial, diabetes e esteatose hepática.
É justamente nesse ponto que a ideia de que as canetas poderiam simplesmente substituir a bariátrica começa a perder força.
Segundo André, a cirurgia continua sendo um dos tratamentos mais efetivos a longo prazo para pacientes com IMC acima de 35 e doenças associadas à obesidade, além daqueles com IMC acima de 40.
Isso não significa que essas pessoas não possam utilizar medicamentos. A questão é que a existência de uma nova opção terapêutica não elimina automaticamente a indicação de outra.
A popularização das canetas também trouxe um novo comportamento aos consultórios: pacientes que já possuem indicação para cirurgia, mas preferem adiá-la para tentar primeiro o tratamento medicamentoso.
Essa tentativa pode funcionar para alguns. Para outros, pode significar apenas postergar um tratamento necessário.
André relata que alguns pacientes com indicação para bariátrica retardam o procedimento para tentar o tratamento medicamentoso. Quando não atingem a perda de peso esperada, não conseguem controlar adequadamente as doenças associadas ou apresentam reganho, acabam posteriormente iniciando o processo para a realização da cirurgia.
“Com isso, há um atraso na perda de peso e no tratamento das doenças associadas, que podem até ter piorado durante esse período.”
Por isso, a decisão entre medicamento e cirurgia não deveria partir apenas do desejo de evitar um procedimento cirúrgico, mas de uma avaliação individualizada sobre qual tratamento é mais adequado para aquele paciente.
A própria evolução do tratamento da obesidade começa a mostrar, inclusive, que a escolha nem sempre precisa ser entre uma coisa ou outra.
“A cirurgia bariátrica, as canetas emagrecedoras e os demais tratamentos para perda de peso não devem ser vistos como concorrentes. Cada um possui suas indicações específicas e, por isso, deve ser prescrito e acompanhado por profissionais e médicos especialistas.”
Segundo André, cirurgia e medicamentos tendem a caminhar juntos e podem até ser utilizados em conjunto, dependendo da necessidade de cada paciente e da indicação médica.
Essa perspectiva muda a pergunta inicial.
Talvez a discussão não seja se as canetas vão acabar com a bariátrica, mas como medicamentos cada vez mais eficazes e a cirurgia podem ocupar lugares diferentes — e, às vezes, complementares — no tratamento da obesidade.
Para André, a cirurgia dificilmente deixará de existir. Mesmo diante do avanço de medicamentos mais potentes, ela continuará tendo um papel especialmente importante no tratamento de pacientes com obesidade grave e daqueles que apresentam doenças associadas à obesidade de forma mais grave.
“Isso acontece porque a cirurgia bariátrica também é um tratamento metabólico e, atualmente, proporciona uma das maiores perdas de peso e benefícios metabólicos disponíveis para esses pacientes.”
As canetas, portanto, não decretaram o fim da bariátrica. Elas ampliaram as possibilidades de tratamento.
E talvez essa seja a principal mudança trazida pelos novos medicamentos: em vez de uma única resposta para todos os pacientes, o tratamento da obesidade passa a contar com um arsenal cada vez maior de ferramentas.
Para uma doença crônica, a tendência não parece ser escolher um vencedor entre medicamento e cirurgia, mas encontrar a estratégia — ou a combinação delas — mais adequada para cada pessoa.
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