Gordura abdominal e vitamina D baixa dobram o risco de morte após os 50 anos
Estudo mostra que a combinação dos dois fatores está associada a um aumento importante da mortalidade; especialista explica
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A gordura acumulada na região abdominal já é conhecida por aumentar o risco de diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e diversos outros problemas de saúde.
Agora, um estudo divulgado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) mostra que, quando esse excesso de gordura está associado à deficiência de vitamina D, o risco de morte após os 50 anos mais do que dobra.
A pesquisa identificou que a combinação desses dois fatores está relacionada a um aumento significativo da mortalidade, principalmente por doenças cardiovasculares e metabólicas. Mas isso não significa que tomar suplementos de vitamina D, isoladamente, seja suficiente para reduzir esse risco.
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Segundo a endocrinologista Luciana Naves, coordenadora do Comitê de Endocrinologia da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), o principal recado do estudo é que obesidade abdominal e deficiência de vitamina D não devem ser avaliadas separadamente.
“A associação entre obesidade abdominal e deficiência de vitamina D identifica um grupo de indivíduos com risco significativamente mais elevado de mortalidade, especialmente por doenças cardiovasculares e metabólicas. Esses dois fatores parecem exercer efeitos biológicos complementares sobre a inflamação crônica, a resistência à insulina, a disfunção endotelial e o envelhecimento vascular”, explica.
A médica faz, no entanto, uma ressalva importante. Como a pesquisa é observacional, ela demonstra uma associação entre os fatores, mas não comprova uma relação direta de causa e efeito.
“Ainda não existem evidências de que apenas corrigir a deficiência de vitamina D seja capaz de reduzir a mortalidade”, afirma.
Por que a gordura da barriga é mais perigosa?
Nem toda gordura corporal representa o mesmo risco para a saúde.

A gordura visceral, que se acumula ao redor dos órgãos na região abdominal, apresenta elevada atividade metabólica e endócrina. Diferentemente da gordura localizada logo abaixo da pele, ela libera grandes quantidades de substâncias inflamatórias e hormônios que alteram o funcionamento do organismo.
Segundo Luciana Naves, esse tecido produz ácidos graxos livres, citocinas inflamatórias, como TNF-alfa e interleucina-6, além de adipocinas relacionadas à resistência à insulina.
Esses mediadores mantêm o organismo em um estado de inflamação crônica de baixo grau, favorecendo o desenvolvimento de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia, doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD), doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral (AVC) e alguns tipos de câncer.
Existe relação entre obesidade e vitamina D baixa?
Sim.
Diversos estudos mostram que pessoas com obesidade apresentam maior prevalência de deficiência de vitamina D, principalmente quando existe acúmulo importante de gordura visceral.
Segundo a endocrinologista, essa associação pode ser explicada por diferentes mecanismos.
Como a vitamina D é lipossolúvel, parte dela fica armazenada no tecido adiposo, reduzindo sua disponibilidade na circulação. Além disso, pessoas com obesidade costumam apresentar menor exposição ao sol, praticar menos atividade física ao ar livre e ter maior frequência de esteatose hepática, condição que também pode interferir no metabolismo da vitamina.
A falta de vitamina D costuma dar sintomas?
Na maioria das vezes, não.
“A deficiência de vitamina D costuma ser assintomática. Portanto, não é possível identificá-la apenas pelos sintomas”, explica Luciana Naves.
Quando eles aparecem, costumam ser inespecíficos, como fadiga, fraqueza muscular, dores musculares, dores ósseas e maior risco de quedas entre idosos.
Nos casos mais graves e prolongados, podem surgir osteomalácia e alterações importantes do metabolismo ósseo.
Por isso, as principais diretrizes internacionais não recomendam a dosagem da vitamina D para toda a população.
O exame costuma ser indicado apenas para pessoas que apresentam maior risco de deficiência, como pacientes com osteoporose, doenças que provocam má absorção intestinal, doença renal crônica, hiperparatireoidismo, idosos institucionalizados e pessoas submetidas à cirurgia bariátrica.
Quem tem obesidade deve fazer exame de vitamina D?
Não necessariamente.
Apesar de pessoas com obesidade apresentarem maior risco de deficiência da vitamina, a obesidade, isoladamente, não é considerada indicação obrigatória para a dosagem rotineira.
Segundo Luciana Naves, alguns especialistas defendem a avaliação em pacientes com obesidade grave ou quando existem outros fatores de risco associados, mas essa decisão deve ser individualizada.
O mesmo vale para a suplementação.
“A reposição deve ser baseada em evidências clínicas e laboratoriais”, explica.
Ela é indicada principalmente quando existe deficiência laboratorial confirmada, osteoporose ou alto risco de fraturas, osteomalácia, doenças que causam má absorção intestinal, pacientes submetidos à cirurgia bariátrica ou pessoas que utilizam medicamentos capazes de alterar o metabolismo da vitamina D.
A endocrinologista lembra que grandes estudos clínicos não demonstraram benefícios consistentes da suplementação indiscriminada de vitamina D na prevenção de doenças cardiovasculares, câncer ou redução da mortalidade em pessoas sem deficiência comprovada.
O que realmente reduz esse risco?
Se a combinação entre gordura abdominal e deficiência de vitamina D aumenta o risco de mortalidade, qual deve ser a prioridade no tratamento?
Segundo a endocrinologista, as evidências científicas atuais mostram que a redução da gordura visceral continua sendo a estratégia com maior impacto comprovado na diminuição do risco cardiometabólico e da mortalidade.
“A perda de peso promove melhora da resistência à insulina, reduz a inflamação sistêmica, melhora a pressão arterial, o perfil lipídico e a esteatose hepática, diminuindo o risco cardiovascular”, afirma.
Isso não significa que a deficiência de vitamina D deva ser ignorada. Quando confirmada, ela também deve ser tratada. No entanto, quando os dois problemas coexistem, a prioridade deve ser reduzir a gordura abdominal.
As estratégias com maior respaldo científico incluem alimentação baseada no padrão mediterrâneo ou em dietas hipocalóricas individualizadas, prática regular de atividade física aeróbica e treinamento de força, sono adequado, tratamento medicamentoso da obesidade quando indicado — como os agonistas do receptor de GLP-1 e os agonistas duplos GIP/GLP-1 — e cirurgia metabólica para pacientes elegíveis.
Já a reposição de vitamina D deve ser realizada apenas quando houver deficiência comprovada ou outra indicação clínica estabelecida.
Segundo Luciana Naves, essa abordagem integrada é a que reúne as melhores evidências para reduzir o risco cardiometabólico e aumentar a sobrevida.
O estudo reforça que gordura abdominal e deficiência de vitamina D representam uma combinação de maior risco para a saúde. Mas também deixa uma mensagem importante: não existe um nutriente ou suplemento capaz de compensar os efeitos da obesidade visceral.
Até o momento, a estratégia mais eficaz para reduzir o risco de doenças e aumentar a expectativa de vida continua sendo o tratamento da obesidade, associado à correção da deficiência de vitamina D quando ela realmente estiver presente.
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