Análise: Notícias falsas estão mais presentes do que nunca
Historiador britânico estudou o impacto das mudanças ao longo da história e concluiu que o perigo das “fake news” é maior do que jamais foi
Patricia Lages|Patricia Lages, o R7

Quando criança, sempre imaginava o que aconteceria se uma pessoa de um século distante entrasse em uma máquina do tempo e fosse transportada para os nossos dias. Tentava adivinhar a expressão de espanto que a pessoa teria diante de uma tela de cinema ou como reagiria ao ver a janela infinita chamada internet que carregamos na palma da mão.
Hoje, penso diferente. Tento imaginar como alguém do passado — de um tempo onde a palavra valia mais do que qualquer assinatura — reagiria a certos comportamentos que, de repente, se tornaram tão comuns nos nossos dias. Um deles é a disseminação em altíssima velocidade das “fake news”.
Fico imaginando quão perplexos nossos antepassados ficariam ao ver pessoas usando suas redes sociais — essa preciosíssima forma de comunicação — para compartilhar notícias que nem sequer se deram ao trabalho de verificar a procedência. Penso que “a troco de quê?” seria a pergunta que os antigos nos fariam.
É certo que notícias falsas sempre existiram, pois espertalhões que se beneficiam da ignorância e da mentira sempre fizeram parte da humanidade ao redor do mundo. Mas, além da velocidade de disseminação das “fake news” ser muito mais lenta, era também mais difícil checar a veracidade das informações.
Atualmente, essa tarefa é infinitamente mais fácil, pois com poucos toques é possível acessar diversos portais idôneos de notícias e averiguar se o que está circulando procede e coincide em todos. A cabeça do nosso convidado de outrora iria girar buscando entender o motivo de as pessoas não tomarem essa providência básica e tão simples. Pois é, se nem nós entendemos, como daríamos explicações?
Há casos famosos que certificam os perigos das notícias falsas, como o da Escola Base, em São Paulo, cujos donos e alguns funcionários foram acusados de pedofilia, em 1994. A imprensa os decretou culpados antes de qualquer julgamento e a escola foi depredada pela população que deu crédito às “fake news”.
Todos os envolvidos foram inocentados e diversos veículos que publicaram a notícia foram condenados a pagar altas indenizações. Porém, a morosidade da justiça é diferente da rapidez das notícias falsas e os proprietários da escola faleceram antes de receberem o que lhes era devido. E tudo ficou por isso mesmo.
A verdade é que qualquer um de nós pode ser vítima dos perigos das “fake news” e das mentiras que aparecem aos montes, tanto na imprensa, quanto nas redes sociais. Não é preciso nenhum estudo para termos certeza de que os estragos são grandes e, em alguns casos, irreversíveis, como o da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, espancada e morta por moradores do Guarujá — litoral de São Paulo — em 2014, depois de ter sua imagem divulgada no Facebook como sequestradora de crianças. A notícia era falsa, mas Fabiane pagou com a vida.
Você já ouviu o conselho de não compartilhar notícias sem verificar sua veracidade, mas talvez ainda não tenha se conscientizado sobre o perigo que clicar em um simples botão pode causar. Não seja cúmplice daqueles que se beneficiam com as “fake news” e não use seu teclado como o martelo de um juiz.
Para terminar, veja a fala do historiador britânico em entrevista à BBC News Brasil: "O perigo de notícias falsas e mentiras é maior hoje do que era no passado. Acho que a verdade vai se tornar muito mais importante à medida que o século 21 avança".
Quem achar a verdade terá o real poder da informação.
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