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Patricia Lages

Análise: O que mais falta no Brasil é dinheiro ou honestidade?

Governantes reclamam que não há dinheiro nos cofres públicos, mas por que gastar até 20 vezes mais com menores infratores do que com estudantes?

Patricia Lages|Do R7

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Menor dentro da Fundação Casa em unidade da zona leste de São Paulo
Menor dentro da Fundação Casa em unidade da zona leste de São Paulo

Como educadora e cidadã, faço questão de incluir na minha agenda trabalhos voluntários que incluem palestras e cursos sobre finanças para crianças, jovens e empreendedores por todo Brasil.

Minha bandeira é fazer o bem, sem olhar a quem. Com isso, ministro palestras e workshops em escolas e comunidades carentes com altos índices de violência (onde é difícil até mesmo achar um taxista que aceite me levar), em igrejas das mais diversas crenças e denominações, para mulheres transexuais (que são tratadas muitas vezes como criminosas) e até mesmo em presídios, sejam masculinos ou femininos. E um desses trabalhos é levar conhecimento a menores infratores na Fundação Casa.


Eles erraram sim, mas isso não impede, nem me exime de fazer a minha parte para a construção de uma sociedade menos violenta e mais justa. Não ganho nada em termos financeiros, mas, talvez, mostrar a um jovem que é possível ter um futuro decente por meio do trabalho honesto possa ser um enorme ganho para o País. Afinal, isso pode evitar que algum deles assalte ou assassine um membro da sua família amanhã, quando forem liberados do regime socioeducativo (até porque, cedo ou tarde, eles serão soltos).

Porém, o que mais me assustou na primeira vez que entrei em uma unidade da Fundação Casa não foi saber quais crimes os infratores cometeram, o que, aliás, não me interessa. Mas sim, ver com meus próprios olhos o uniforme que usam, a comida que comem, e o tratamento que recebem. Na verdade, nem sei se posso chamar o que vi de uniforme ou comida...


Você pode até achar que eles merecem vestir trapos nojentos com números de identificação pintados a mão e comer marmitas que, só de sentir o cheiro de longe, me causaram náuseas. Mas talvez você não saiba quanto o governo gasta com cada interno do socioeducativo.

Está sentado? Pois saiba que o governo gasta R$ 11.500 mensalmente com cada interno da Fundação Casa, enquanto o investimento com um aluno de escola técnica não passa de R$ 3.500. Para alunos do ensino fundamental o investimento é bem menor. Em alguns estados, como Minas Gerais, a coisa consegue ser ainda pior, pois um menor infrator custa 21 vezes mais do que um estudante de escola pública.


Diante dessas informações e do que vi com meus próprios olhos, não consigo encontrar respostas para várias perguntas, como: por que investir muito mais com menores infratores do que com estudantes? Seria porque recuperá-los é mais trabalhoso? Se é assim, por que o índice de reincidência é tão alto?

E por que os internos usam trapos, se alimentam de algo que me recuso a chamar de comida e são tratados como se estivessem em um campo de concentração? Para onde vão os R$ 11.500 que o governo destina a cada um deles?


Por que nós, voluntários, somos proibidos de tocar em uma interna, não podendo nem sequer dar um aperto de mão, enquanto várias delas aparecem grávidas da noite para o dia? Somos vigiados a cada passo que damos e em cada palavra que falamos, em nome de um pseudo cuidado dos funcionários com as internas, ao mesmo tempo que testemunhamos o péssimo tratamento que muitos deles dão a elas sem podermos abrir a boca. Se as defendemos eles até amenizam os excessos, mas dão o troco mais tarde, quando ninguém está vendo.

E, por fim, o que você faria se recebesse uma verba de R$ 11.500 por mês para cada membro da sua família? Você acha que o futuro deles seria melhor ou pior? Pois há quem tenha a destinação de uma verba dessa, garantida por lei, mas cujo futuro está bem longe de ter garantias de ser melhor. Para que tipo de futuro nossa sociedade está caminhando?

Outro lado

Às 20h05 do dia 9 de outubro, a Fundação Casa enviou a seguinte nota à colunista:

“Em resposta à análise “O que mais falta no Brasil é dinheiro ou honestidade?”, publicada na coluna Meu Estilo, pela jornalista Patrícia Lages, no Portal R7.com no último domingo (07 de outubro), a Fundação CASA esclarece que presta o atendimento socioeducativo aos e às adolescentes conforme os preceitos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase).

Um centro socioeducativo funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Nutricionistas elaboram o cardápio da alimentação, enquanto funcionários cuidam diariamente das roupas utilizadas pelos jovens, cujos uniformes são individualizados. Há aparato de segurança, atendimento psicossocial e atendimento médico e odontológico básicos.

A complexidade do atendimento é maior do que o de uma escola técnica, motivo pelo qual o custo médio mensal por adolescente é de cerca de R$ 11.500. Neste valor estão contabilizados ainda os salários e benefícios dos cerca de 12 mil funcionários, além de atividades pedagógicas em período integral, como aulas de educação profissional, oficinas de arte e cultura e práticas esportivas.

A diretriz da Instituição é que o tratamento dispensado entre funcionários e adolescentes deve ser respeitoso. Caso ocorra alguma conduta inadequada, quando denunciada à Fundação, ela é investigada pela Corregedoria Geral da Instituição, podendo culminar em processo administrativo contra o funcionário, com direito ao contraditório e à ampla defesa”

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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