Análise: Quando o público tem voz as certezas viram dúvidas
Quando o Ibope ditava a audiência das TVs e rádios, seus relatórios eram praticamente leis. Hoje, com a internet dando voz às pessoas, as certezas de ontem se tornaram dúvidas
Patricia Lages|Do R7

Durante muito tempo as emissoras de TV e rádio foram reféns dos relatórios de audiência vendidos pelo Ibope. Se o instituto dissesse que um determinado programa tinha baixa audiência, não havia nada que pudesse ser feito a não ser mudar o formato ou, em último caso, tirá-lo do ar por falta de anunciantes.
Trabalhando na área da comunicação desde 1991, lembro-me de diversas polêmicas envolvendo o Ibope e colocando em questão a forma como os relatórios eram desenvolvidos. Um dos casos mais emblemáticos foi o do antigo programa Note & Anote, apresentado por Ana Maria Braga, com quem trabalhei por vários anos.
Ao longo de 4h30 ao vivo, de segunda a sexta-feira, o programa tinha diversos clientes anunciando seus produtos com vendas por telefone. O número das vendas de todo tipo de produto era alto, tanto que, à época, não havia espaço suficiente para encaixar toda a demanda de ações de merchandising.
Porém, os baixos números que o Ibope atribuía ao Note & Anote não coincidiam com as vendas e nem com o número imenso de correspondências recebidas todos os dias. Houve um caso em que, com uma única ação envolvendo um sorteio, foram recebidas mais de 1.3 milhão de cartas. Lembrando que o envio de uma carta era um dado altamente qualificado, pois além do tempo necessário para prepará-la, é preciso pagar pela postagem.
Hoje, a internet democratizou a informação e abriu a caixa preta contendo o que, de fato, as pessoas veem, ouvem e leem. Por mais que os números de audiência das redes sociais também possam ser manipulados, o monopólio da informação ficou no passado.
Até mesmo algumas regras de linguagem estão caindo por terra. Lembro-me que, em redação, aprendíamos que jamais se começa uma frase, muito menos um título de matéria, com a palavra não. A justificativa era de que ninguém gosta de ouvir não, portanto, quem se interessaria por qualquer coisa que comece com uma negativa?
Mas, como explicar, por exemplo, a quantidade enorme de vídeos com altos números de visualizações no YouTube que se sobressaem justamente pela utilização do não em seus títulos? Não faça isso, não fale aquilo, não compre essas coisas e por aí vai.
Particularmente, o vídeo de maior audiência do meu canal - com quase 1 milhão e meio de visualizações – é intitulado “Não conte essas 6 coisas a ninguém”. O não, que antes era certeza de fracasso, hoje já coloca a certeza da regra em dúvida.
Mais do que nunca, o público tem voz e é capaz de dizer por si mesmo do que gosta e do que não gosta, portanto, as antigas regras do jogo estão se mostrando exatamente o que são: antigas. Essa é uma das vantagens que a democratização da informação trouxe e, com toda a certeza, é algo a se comemorar.
Patricia Lages
É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. Ministra cursos e palestras, tendo se apresentado no evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard (2014). Na TV, apresenta os quadros "Economia doméstica" no programa "Mulheres" TV Gazeta e "Economia a Dois" na Escola do Amor, Record TV. No YouTube mantém o canal "Patrícia Lages - Dicas de Economia", com vídeos todas as terças e quintas.














