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Musculação e CrossFit causam hérnia? Saiba o que é mito e quais cuidados tomar

Exercícios de força aumentam a pressão dentro do abdômen, mas não são, por si só, responsáveis pelo surgimento do problema

Como Ser Saudável|Renata GarofanoOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Musculação e CrossFit não causam hérnia diretamente, mas podem revelar ou agravar uma área de fragilidade preexistente na parede abdominal.
  • Fatores como predisposição genética, envelhecimento, obesidade e tabagismo podem aumentar o risco de desenvolver hérnias.
  • Erros comuns durante exercícios, como levantar peso excessivo e técnica inadequada, podem aumentar a pressão abdominal e desencadear sintomas em pessoas predispostas.
  • É importante aprender a executar movimentos corretamente, controlar a carga e coordenar a respiração para evitar problemas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Quem treina musculação ou CrossFit provavelmente já ouviu alguém dizer que levantar muito peso “dá hérnia”. É uma associação tão comum que, confesso, eu mesma já ouvi essa dúvida algumas vezes — e ela faz sentido quando pensamos no esforço que esses exercícios exigem do abdômen.

Exercícios de força podem revelar uma hérnia que já existia, especialmente quando há fragilidade na parede abdominal. PEXELS/CristianCamiloEstrada

Mas será que o peso é realmente o vilão?


Foi justamente essa pergunta que levei ao cirurgião-geral Leonardo Emílio da Silva, especialista em cirurgia minimamente invasiva e robótica do Einstein Hospital Israelita de Goiânia. E a resposta é mais complexa do que um simples “sim” ou “não”.

Musculação e CrossFit não causam hérnia por si só. Durante os exercícios de força, os músculos do abdômen se contraem para estabilizar o tronco e a pressão dentro da cavidade abdominal aumenta. Em uma parede abdominal saudável, esse mecanismo costuma ser bem tolerado.


O problema aparece quando já existe uma área de fragilidade. Nesse caso, o esforço pode revelar uma hérnia que ainda não havia sido percebida ou agravar uma que já estava presente.

“O exercício geralmente funciona mais como fator desencadeante ou revelador do que como causa única”, explica o médico.


E essa diferença é importante, principalmente para quem gosta de treinar pesado e não quer abrir mão da atividade física por medo de desenvolver uma hérnia.

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Afinal, o que é uma hérnia?

A hérnia acontece quando gordura ou parte de um órgão atravessa uma região de fraqueza da parede abdominal. É essa passagem que pode provocar o conhecido “caroço” ou abaulamento.


Mas por que isso acontece com algumas pessoas e não com outras?

A resposta está em uma combinação de fatores. Algumas pessoas já nascem com regiões naturalmente mais frágeis. Em outras, essa fragilidade se desenvolve ao longo da vida.

Predisposição familiar, envelhecimento, obesidade, tabagismo, cirurgias abdominais anteriores, gravidez, tosse crônica, prisão de ventre e dificuldade para urinar estão entre os fatores associados às hérnias.

A qualidade do colágeno, proteína que ajuda a dar resistência aos tecidos, também pode influenciar.

Isso ajuda a explicar uma situação que pode parecer curiosa: duas pessoas podem fazer o mesmo exercício, com cargas semelhantes, e apenas uma desenvolver uma hérnia.

Por que, então, o levantamento de peso ganhou essa fama?

Aqui está a parte que pode explicar o mito.

Durante um exercício de força, especialmente quando a carga é elevada, a pressão dentro do abdômen aumenta. Esse mecanismo é importante para estabilizar o tronco e permitir que o corpo produza força.

O problema pode surgir quando esse aumento de pressão acontece repetidamente em uma parede abdominal que já apresenta alguma fragilidade.

Carga excessiva, progressão rápida e técnica inadequada podem favorecer picos de pressão e desencadear sintomas em quem já tem predisposição.

Entre os erros mais comuns estão tentar levantar mais peso do que se consegue controlar, perder a estabilidade do tronco, usar impulso para completar o movimento e continuar treinando mesmo depois do aparecimento de dor ou de um abaulamento.

Prender a respiração durante o exercício é um problema?

Essa é outra questão importante para quem treina pesado.

Em esforços máximos, algumas pessoas prendem a respiração para aumentar a estabilidade do tronco. A técnica é conhecida como manobra de Valsalva e provoca um aumento significativo da pressão dentro do abdômen.

Ela pode fazer parte de estratégias específicas utilizadas por atletas treinados. Mas, segundo Leonardo Emílio, não deve ser reproduzida indiscriminadamente por iniciantes ou por pessoas que tenham suspeita de hérnia.

Por isso, aprender a executar corretamente os movimentos, controlar a carga e coordenar a respiração com o esforço são cuidados importantes.

Como diferenciar uma hérnia de uma dor muscular?

Essa foi uma das perguntas que mais me interessou durante a conversa com o especialista, porque quem treina sabe que nem sempre é fácil interpretar uma dor depois de um treino mais pesado.

Nem todo caroço ou dor após o treino significa hérnia, mas alterações persistentes devem ser avaliadas por um especialista. MAZKO VADIM

O sinal mais característico de uma hérnia é o aparecimento de um caroço ou abaulamento no umbigo, na virilha, no abdômen ou próximo a uma cicatriz cirúrgica.

Esse abaulamento pode aparecer ou aumentar quando a pessoa levanta peso, tosse, faz força ou permanece em pé. Em alguns casos, ele diminui quando a pessoa se deita.

Também podem surgir sensação de peso, pressão, queimação ou dor localizada.

Já a dor muscular costuma ser mais difusa, aparece depois do treinamento e pode piorar quando o músculo é contraído ou alongado. Em geral, melhora progressivamente ao longo de alguns dias e não provoca um caroço.

Mas existe uma ressalva importante: nem toda hérnia apresenta um abaulamento visível.

Por isso, quando existe dúvida, a avaliação médica é o caminho mais seguro. Dependendo do caso, o especialista pode solicitar exames como ultrassonografia ou tomografia.

Quem tem hérnia precisa parar de treinar?

Não necessariamente.

Essa é provavelmente uma das melhores notícias para quem descobriu uma hérnia e não quer abandonar a atividade física.

A necessidade de interromper o treino depende do tipo, tamanho, localização e sintomas da hérnia, além das condições clínicas de cada pessoa.

“Algumas pessoas com hérnias pequenas e pouco sintomáticas podem permanecer fisicamente ativas, desde que avaliadas por um cirurgião e acompanhadas por profissional de educação física ou fisioterapeuta”, explica Leonardo.

Isso significa que, em determinadas situações, é possível adaptar o treinamento. A carga, a amplitude dos movimentos e a escolha dos exercícios podem ser modificadas de acordo com cada caso.

Não existe, porém, uma “carga segura” que sirva para todo mundo.

Até passar por uma avaliação, a orientação é evitar qualquer exercício que provoque dor, aumente o abaulamento ou cause desconforto.

E vale um alerta para quem aposta em cintas abdominais: elas podem proporcionar uma sensação temporária de suporte, mas não fecham a hérnia e não substituem o tratamento indicado pelo médico.

Quando uma hérnia precisa de cirurgia?

Nem toda hérnia precisa ser operada imediatamente.

A cirurgia pode ser indicada quando existe dor, aumento do tamanho da hérnia, limitação para atividades do dia a dia ou para a prática de exercícios, prejuízo da qualidade de vida ou maior risco de complicações.

A decisão é individual e depende do tipo de hérnia, localização, sintomas e condições clínicas do paciente.

Em alguns casos pouco sintomáticos, o médico pode recomendar acompanhamento. Já situações específicas podem exigir tratamento cirúrgico.

O importante é não ignorar o problema.

Hérnias não costumam desaparecer espontaneamente e podem aumentar com o tempo. Uma das complicações mais graves ocorre quando uma alça do intestino fica presa na abertura da parede abdominal e tem sua circulação sanguínea comprometida.

É o chamado estrangulamento, uma situação que pode provocar obstrução intestinal e até necrose e que exige atendimento médico de urgência.

Quando procurar atendimento imediatamente?

Aqui, vale deixar o treino de lado e prestar atenção aos sinais do corpo.

Dor intensa e repentina, um abaulamento endurecido que não retorna, vermelhidão na região, náuseas, vômitos ou distensão abdominal são sinais de alerta.

Nessas situações, é importante procurar atendimento médico rapidamente.

Dá para prevenir uma hérnia?

Nem sempre.

Quando existe uma predisposição genética ou uma fragilidade natural da parede abdominal, não há como garantir que uma hérnia não apareça.

Mas alguns cuidados podem reduzir fatores de risco e, principalmente, ajudar a evitar que o exercício seja feito de maneira inadequada.

O especialista recomenda:

  • fazer uma avaliação antes de iniciar treinos muito intensos, especialmente depois de uma cirurgia abdominal;
  • aprender corretamente a técnica dos exercícios;
  • aumentar carga e intensidade de forma gradual;
  • fortalecer o tronco de maneira equilibrada;
  • coordenar a respiração com o esforço;
  • evitar prender o ar desnecessariamente;
  • respeitar dor, fadiga e perda de controle do movimento;
  • manter um peso adequado;
  • não fumar;
  • tratar tosse persistente, prisão de ventre e dificuldade para urinar;
  • procurar avaliação médica se surgir dor localizada ou abaulamento.

Musculação e CrossFit não precisam ser os vilões

Depois dessa conversa, minha principal conclusão foi justamente essa: não faz sentido olhar para musculação ou CrossFit como inimigos da parede abdominal.

O exercício aumenta, sim, a pressão dentro do abdômen. Mas isso não significa que toda pessoa que levanta peso esteja colocando a saúde em risco.

O que parece fazer mais diferença é a combinação entre predisposição, fragilidade da parede abdominal, carga incompatível, técnica inadequada e falta de atenção aos sinais do corpo.

Para quem gosta de treinar, a mensagem é mais tranquilizadora do que parece: atividade física bem orientada pode continuar fazendo parte da rotina mesmo em muitos casos de hérnia.

E fica uma regra que vale para praticamente qualquer exercício: se apareceu uma dor diferente do habitual, um caroço ou um abaulamento, não tente simplesmente “treinar por cima”. Pare, observe e procure orientação.

Afinal, conhecer os limites do próprio corpo também faz parte de um treino bem feito.

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