Por que produtos ‘sem açúcar’ podem causar gases, estufamento e diarreia?
Presentes em chicletes, balas, chocolates e suplementos, os polióis podem provocar sintomas gastrointestinais
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Você já escolheu um produto “sem açúcar” achando que estava fazendo uma opção mais saudável e, algumas horas depois, sentiu a barriga estufar, teve gases ou até precisou correr para o banheiro?
Pode ser que o problema não esteja exatamente no alimento, mas em um ingrediente bastante comum nas versões “zero” ou “sem açúcar”: os polióis, como sorbitol e xilitol.
Esses compostos são utilizados para substituir o açúcar em diversos produtos, como chicletes, balas, chocolates, sobremesas, barras de proteína, suplementos e até alguns medicamentos. Apesar de serem considerados seguros para a maioria das pessoas, eles podem provocar desconforto intestinal porque não são completamente absorvidos pelo organismo.
“Os polióis são carboidratos de absorção incompleta. Uma parte deles não é absorvida no intestino delgado e chega ao cólon, onde pode ser fermentada pela microbiota ou provocar um efeito osmótico, levando água para dentro do intestino”, explica a gastroenterologista Lívia Guimarães.
Na prática, isso pode resultar em gases, distensão abdominal, cólicas, flatulência e diarreia.
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Por que o intestino reage?
Quando uma quantidade significativa de sorbitol ou xilitol chega ao intestino grosso, as bactérias da microbiota podem fermentá-la. Esse processo produz gases.
Ao mesmo tempo, a presença dos polióis pode aumentar a quantidade de água dentro do intestino. Dependendo da quantidade ingerida e da sensibilidade de cada pessoa, o resultado pode ser um trânsito intestinal mais acelerado e fezes mais amolecidas ou diarreia.
É por isso que alguém pode consumir um chiclete sem açúcar sem sentir absolutamente nada, enquanto outra pessoa pode apresentar sintomas mesmo com uma quantidade aparentemente pequena.
Não existe uma dose universal a partir da qual todos terão sintomas.
A tolerância depende de fatores individuais e também da quantidade total consumida ao longo do dia. Uma pessoa pode, por exemplo, comer uma bala sem açúcar pela manhã, uma barra de proteína à tarde e algumas unidades de chiclete à noite sem perceber que está somando diferentes fontes de polióis.
‘Sem açúcar’ não significa ‘sem efeitos’
A expressão “sem açúcar” pode passar a impressão de que determinado alimento é automaticamente mais saudável ou que pode ser consumido sem preocupação.
Não é bem assim.
Para substituir o açúcar, a indústria utiliza diferentes ingredientes. Entre eles estão sorbitol, xilitol, manitol, maltitol, isomalte, lactitol e eritritol, que podem aparecer nos rótulos com o nome de polióis.
Eles podem ser encontrados principalmente em:
- chicletes e balas sem açúcar;
- chocolates, biscoitos e sobremesas diet ou zero;
- barras de proteína;
- geleias e bebidas sem açúcar;
- pastilhas para a garganta;
- xaropes e vitaminas mastigáveis;
- alguns produtos de higiene bucal, como cremes dentais e enxaguantes.
Por isso, para quem percebe desconforto intestinal frequente, olhar a lista de ingredientes pode ser tão importante quanto observar a quantidade de açúcar ou calorias.
Sorbitol ou xilitol: existe diferença?
Os dois pertencem à mesma família, mas não apresentam exatamente o mesmo comportamento no organismo.
De maneira geral, o sorbitol tende a ser menos absorvido no intestino e pode provocar sintomas gastrointestinais com mais facilidade. O xilitol pode apresentar uma tolerância um pouco melhor em algumas pessoas, mas também pode causar gases, distensão e efeito laxativo quando consumido em excesso.
Estudos que avaliaram a absorção desses compostos mostram justamente essa diferença. Pesquisas com testes respiratórios de hidrogênio, por exemplo, encontraram má absorção com maior frequência após o consumo de sorbitol do que de xilitol.

Isso, porém, não significa que uma pessoa que tenha sintomas com sorbitol necessariamente terá o mesmo problema com xilitol — ou que o xilitol esteja livre de efeitos intestinais.
Até frutas podem conter sorbitol
Os polióis não estão presentes apenas em produtos industrializados.
O sorbitol ocorre naturalmente em algumas frutas, como maçã, pera, pêssego, ameixa, damasco, cereja, melancia e abacate. Alguns vegetais, como cogumelos e couve-flor, também podem conter polióis.
Isso não significa que esses alimentos devam ser retirados da alimentação.
Para a maioria das pessoas, eles fazem parte de uma dieta saudável e não provocam sintomas. A questão é observar a tolerância individual e o conjunto da alimentação, principalmente quando existe sensibilidade intestinal.
Quem tem intestino sensível pode reagir mais
Pessoas com síndrome do intestino irritável ou maior sensibilidade gastrointestinal podem apresentar sintomas com quantidades menores.
Quem já convive com gases, distensão abdominal, alterações frequentes do hábito intestinal ou episódios recorrentes de diarreia também pode perceber mais facilmente os efeitos.
“Algumas pessoas conseguem consumir pequenas quantidades sem nenhum problema, enquanto outras apresentam sintomas com doses menores. A resposta é bastante individual”, explica Lívia.
É justamente por isso que não é adequado estabelecer uma quantidade única de sorbitol ou xilitol que seria considerada “segura” para todo mundo.
Alguns protocolos alimentares, como a dieta low-FODMAP, utilizam quantidades bastante reduzidas de determinados polióis durante a fase de restrição. Esses valores, porém, não devem ser interpretados como uma dose universal de intolerância.
O problema pode estar na soma do dia
Outro ponto importante é que o intestino não “zera” a conta a cada alimento.
Uma pessoa pode tolerar uma pequena quantidade de sorbitol em determinado produto, mas apresentar sintomas depois de consumir outras fontes ao longo do dia.
Por isso, quando existe suspeita de que os polióis estejam por trás do desconforto, vale observar não apenas um alimento isoladamente, mas tudo o que foi consumido nas horas anteriores.
Manter um diário simples, anotando alimentos, horários e sintomas, pode ajudar a identificar padrões.
Quando os sintomas precisam ser investigados?
Gases, estufamento ou episódios isolados de diarreia depois de consumir produtos com polióis não significam necessariamente que exista uma doença.
O problema é quando os sintomas são frequentes, intensos ou começam a interferir na rotina.
Isso porque manifestações semelhantes também podem aparecer em condições como intolerância à lactose ou à frutose, síndrome do intestino irritável, doença celíaca e alterações relacionadas à microbiota intestinal, entre outras.
Por isso, quando o desconforto é recorrente, o ideal é procurar um gastroenterologista em vez de simplesmente retirar vários alimentos da dieta por conta própria.
A atenção deve ser ainda maior diante de sinais como perda de peso sem explicação, anemia, sangue nas fezes, febre, vômitos, sintomas durante a noite ou sinais de deficiência nutricional.
Como descobrir se o problema é o sorbitol ou o xilitol?
Quando existe suspeita, uma das estratégias utilizadas é reduzir ou retirar temporariamente os alimentos que contêm os possíveis desencadeadores e observar a resposta do organismo.
Segundo a gastroenterologista Lívia Guimarães, uma redução por algumas semanas, seguida de reintrodução gradual, pode ajudar a identificar se existe relação entre determinado composto e os sintomas.
O acompanhamento profissional é importante, principalmente quando a pessoa pretende fazer uma restrição alimentar mais ampla. A ideia não é eliminar alimentos indefinidamente, mas entender o que provoca sintomas, em qual quantidade e qual é a tolerância individual.
Afinal, é preciso evitar os polióis?
Não necessariamente.
Para a maioria das pessoas, sorbitol e xilitol podem ser consumidos sem grandes problemas dentro de uma alimentação equilibrada. O ponto de atenção está principalmente no excesso e na sensibilidade individual.
Se um chiclete sem açúcar causa desconforto, por exemplo, isso não significa que todos os produtos com adoçantes precisem ser eliminados. Pode ser necessário identificar qual composto está envolvido e qual quantidade o organismo tolera.
Mais do que transformar o sorbitol e o xilitol em novos “vilões” da alimentação, a recomendação é prestar atenção aos sinais do próprio corpo.
Afinal, “sem açúcar” não significa “sem limites”, e nem sempre significa que determinado produto será a melhor escolha para o seu intestino.
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