Escravidão moderna: fuga das responsabilidades e abandono do raciocínio
Ser livre não se resume a fazer o que se quer, mas a desenvolver autonomia e responder pelas próprias decisões

Durante mais de três séculos, milhões de pessoas foram submetidas à escravidão no Brasil. Não podiam decidir livremente onde morar, para quem trabalhar, quanto receber ou que destino dar à própria vida. Escravos eram considerados propriedade de seus senhores e tudo isso era amparado pela lei.
O trabalho era imposto, a subsistência dependia do que lhes era dado e o acesso à informação e ao conhecimento era limitado, quando não inexistente. A abolição da escravatura cumpriu a promessa de pôr fim legalmente a esse sistema, mas não eliminou outras formas de dependência às quais qualquer pessoa pode estar sujeita.
Embora hoje todo brasileiro possa, legalmente, estudar, aprender coisas novas, trabalhar, tanto para terceiros quanto para si mesmo, administrar seu dinheiro e confrontar informações antes de aceitá-las como verdadeiras, muitos têm aberto mão de tudo isso.
Sabemos que nem todos têm as mesmas oportunidades e que as circunstâncias podem impor limites. Porém, a liberdade que temos hoje traz uma possibilidade que a escravidão negava: a de exercer autonomia sobre a própria vida. E é justamente aqui que começa uma contradição desconfortável.
Quem transfere para terceiros suas responsabilidades e prefere que alguém lhe diga o que fazer, como agir e até mesmo o que pensar abre mão da sagrada liberdade de decidir. E isso é muito mais comum do que parece.
Quantas são as pessoas que, em vez de buscar conhecimento, preferem receber respostas prontas? Que, em vez de decidirem por si mesmas, procuram quem decida por elas? Em vez de desenvolver disciplina, procuram alguém que as controle. E assim, pouco a pouco, vão terceirizando a autonomia que deveriam desenvolver em si mesmas.
Evitar a angústia de escolher pode parecer muito confortável, mas, na verdade, não decidir já é uma escolha. Péssima, por sinal. Não decidir é tornar-se escravo de quem decide. Não aprender é tornar-se escravo de quem manipula. Não tomar as rédeas da própria vida é tornar-se escravo de alguém que, invariavelmente, as tomará.
A escravidão moderna vai além das restrições causadas por correntes físicas. Ela se instala na mente de quem crê não ser capaz de se responsabilizar pela própria vida e entrega, por vontade própria, seu destino nas mãos de outros. Nesse sentido, a escravidão do pensamento pode aprisionar mesmo quem tem a liberdade de escolher.
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