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Patricia Lages

Análise: Militância que não liberta quando troca imposição por outra

Liberdade não significa poder fazer o que quiser? Será que uma negra não pode alisar o cabelo sem correr o risco de ser tratada como traidora?

Patricia Lages|Patricia Lages

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Anúncio de emprego pedia cabelos 'adequados'
Anúncio de emprego pedia cabelos 'adequados'

Particularmente, acredito que temos de lutar para que nossa sociedade seja mais justa e trate as pessoas com mais igualdade. Os direitos civis devem ser os mesmos para todo e qualquer cidadão, seja homem, mulher, branco, negro, jovem, idoso, rico, pobre, culto, inculto, que professe uma fé ou seja ateu. Ninguém deveria estar acima da lei ou deixar de ser amparado por ela.

Nós, mulheres, não deveríamos ter salários menores que os dos homens que exercem a mesma função. Deveríamos ter o direito de não sermos assediadas no trabalho e de termos nossos ouvidos poupados de piadinhas que traduzem qualquer mudança de humor como TPM e toda perda de paciência, por menor que seja, como “falta de homem”. Mas a verdade é que, infelizmente, ainda estamos longe disso...


Muitas pessoas têm se unido a grupos que militam pela liberdade e igualdade de direitos, mas, infelizmente, vários deles têm apenas trocado uma imposição por outra. Já vou explicar o motivo dessa constatação.

Dia desses me enviaram dois anúncios (ridículos) de emprego. Um deles exigia que as candidatas tivessem cabelos “adequados” e até exibia fotos com exemplos do que era permitido: cabelos soltos só os super lisos, divididos ao meio ao estilo Mortícia Adams. Os demais, deveriam estar muito bem presos em rabos de cavalo ou coques baixos, ou ainda com tranças e penteados tão elaborados que só seria possível para quem tem cabeleireiro em casa... Cabelos enrolados ou crespos são considerados “assanhados” e, portanto, inadequados para um local de trabalho.


O outro anúncio exigia que a candidata mandasse foto de rosto e de corpo inteiro (quanto mais ângulos melhor, claro), que vestisse manequim 38 e que calçasse tamanho 37. Mesmo as candidatas que se aproximassem da marca calçando 36 ou 38, não tinham a menor chance... Tinha que ser exatamente 37! Tudo isso sob a alegação de que a nova funcionária deveria caber no uniforme da anterior, pois não seria comprado um novo. Que bela estratégia de gestão de pessoas! Deve ser mesmo uma empresa super séria, não é verdade?

Não consigo entender por que, nós, mulheres, estamos constantemente sendo colocadas em competições impossíveis e sem nexo, e que sejamos sempre tratadas como se existisse algo de errado em nós... Eu, por exemplo, tenho pouco mais de um metro e meio de altura e, nos meus quase 30 anos de carreira profissional, cansei de ouvir que não tenho “tamanho” ou “porte físico” para ocupar uma posição de liderança. O que eu deveria fazer uma vez que nunca serei mais alta? Me conformar por ter tido o “azar” de ser baixinha? Viver limitada a ser subordinada a alguém mais alto? Não, nem pensar! Mas em vez de entrar para um grupo de militância “anti-pessoas-altas”, escolhi o caminho mais difícil: trabalhar o dobro ou o triplo do que os demais e provar que, “mesmo sendo baixinha” eu não sou incompetente. Surreal, né? Na verdade não, isso é bem real!


Não sou anti-militância, mas também não acredito que só se vença a ignorância que nos cerca indo para as ruas com cartazes e faixas nas mãos, exigindo que as pessoas nos aceitem como somos e fim de papo. Isso só se consegue com muito sacrifício e cada pessoa sabe bem como a sociedade a oprime, pois, no fundo, todos nós, somos oprimidos de alguma forma. Até mesmo por algumas militâncias — e agora vem a explicação da constatação.

Ouvindo a conversa de algumas mulheres (não, eu não sou do tipo que se interessa pela conversa dos outros, mas há pessoas que, infelizmente, falam incrivelmente alto), pude testemunhar um exemplo de como a militância — criada supostamente para garantir liberdade — também pode ser opressora.


Na conversa, que acabou em gritaria, uma das mulheres repreendia outra dizendo que, pelo fato de ter alisado o cabelo, ela estava negando suas raízes afro e que deveria sentir vergonha por ter se dobrado às exigências de uma sociedade que ainda tenta escravizar a mulher negra. A mulher de cabelos alisados se defendia dizendo que havia optado pelo tratamento por vontade própria, pois não tinha habilidade para cuidar de um cabelo afro e que, devido à sua rotina, o cabelo liso facilitava sua vida. As demais, porém, todas com cabelos afro – uma delas exibindo um turbante maravilhoso que a fazia parecer uma rainha – foram para cima da “alisada” com mais veemência ainda:

“Sua desculpa não cola! Você se rendeu! No fundo você queria ser branca porque acha nossa estética natural inferior... que vergonha! Deve ter feito isso para conseguir vaga em alguma empresa reacionária! Cabelo afro é patrimônio cultural e você como negra tem que entender e defender isso! Você está enfraquecendo a causa! Você não merece ser negra!”

É certo que existem setores da sociedade que dificultam a vida da mulher (seja negra, branca, alta ou baixa), mas liberdade não significa poder fazer o que quiser? Quando foi que esse conceito mudou? Será que eu não posso trançar meu cabelo porque sou branca e estaria me apropriando de uma cultura que não é minha? Será que uma negra não pode alisar o cabelo sem correr o risco de ser humilhada e tratada como traidora? Em que momento perdemos a mão e passamos de oprimidas a opressoras?

Que na nossa luta do dia a dia, saibamos buscar a nossa liberdade sem aprisionar quem se sente livre.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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