Análise: Patrulha do idioma não defende, apenas censura
Quem acha que impedir certas opiniões visa defender minorias engana-se, pois o objetivo maior é censurar o que não interessa que seja dito
Patricia Lages|Do R7

Assisti no YouTube a um quadro do saudoso Chico Anysio interpretando o genial Justo Veríssimo. O personagem era um político corrupto que usava um bordão que hoje seria classificado como “politicamente incorreto”: “Eu quero que pobre se exploda!”
Em suas esquetes, Chico mostrava abertamente ao público, através das palavras de Justo Veríssimo, como muitos políticos agiam e agem até os dias de hoje. Sem papas na língua, ele falava, por exemplo, como funcionavam os esquemas de propina e o quanto o povo é o último a ser lembrado, terminando sempre com o bordão que marcou uma época.
Hoje em dia, há políticos que continuam trabalhando arduamente para que os pobres se explodam, mas, além disso, estão se aplicando a controlar o que podemos ou não falar, sejamos pobres ou ricos.
Camuflada de “defensora das minorias”, a onda do politicamente correto visa, na verdade, censurar por força de lei, o que nós podemos falar, escrever, publicar. Ou seja, estão querendo tirar a nossa liberdade de expressão, mas tudo no esquema “paz e amor” que convence aos desavisados, porém, prejudica a todos.
Nesses dias de patrulhamento em que vivemos, Chico Anysio, um dos maiores humoristas deste país, provavelmente estaria desempregado ou na “geladeira”, para evitar as saias justas que poderia causar com suas verdades nuas e cruas.
Infelizmente as pessoas não estão percebendo o quanto é absurdo criminalizar a fala das pessoas... Como é possível que se considere algo normal que alguém vá para a cadeia por ter dito alguma coisa? Ainda mais quando o crime vale para alguns, mas não para outros. Como pode ser que a maioria das pessoas não creia que a justiça brasileira seja imparcial e verdadeiramente justa, mas, por outro lado, queiram criminalizar até mesmo o que é dito?
A impressão que dá é que estamos caminhando para um mundo ao estilo Minority Report, aquele filme estrelado por Tom Cruise que se passa em 2054, onde há um sistema que prevê crimes e prende os criminosos antes mesmo que eles os cometam.
Pense bem: a quem interessa controlar aquilo que falamos? Às minorias? Tem certeza? Qual partido político está, de fato, preocupado com as minorias se toda e qualquer eleição é definida pela maioria? Fique de olhos bem abertos com aqueles que encabeçam a patrulha do idioma, pois eles não passam de pessoas que querem reimplantar a censura neste país. Hoje eles tentam com unhas e dentes controlar o que você fala para, amanhã, controlarem até o que você pensa. Por isso, pense enquanto é tempo.
Patricia Lages
É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo, palestrante e conferencista do evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard. Apresenta quadros de economia na TV Gazeta e Record TV e é facilitadora da RME para o programa mundial WomenWill – Cresça com o Google.













