Ará Mirim registra receitas e saberes Mbya Guarani em livro
Professora, escritora e liderança indígena passou três anos pesquisando e escrevendo 25 preparos tradicionais em português, sua segunda língua

Por três anos, Ará Mirim Yvoty reuniu no próprio notebook receitas aprendidas com a mãe, os avós, as tias, a sogra e outras pessoas mais velhas de sua comunidade indígena guarani. Escreveu, pesquisou e reorganizou o material até transformar essas lembranças em um projeto de livro. “Eu mostrei o que estava escrevendo no meu notebook velho. Estava tudo lá: a culinária Guarani, as receitas, tudo”, conta.
O trabalho resultou em “Tembi’u Guarani: Culinária Indígena”, publicação bilíngue, em português e guarani, com 25 receitas e preparos tradicionais do povo Mbya Guarani. Ará assina a autoria, a organização e a tradução da obra, realizada pelo Instituto Família Barrichello, com coordenação geral e pesquisa de Claudia Alexandre.
O livro foi lançado neste mês de agosto, mas a história de Ará, que tornou o livro possível, começou muito antes, entre mudanças de aldeia, maternidade, retorno à escola e trabalho na educação indígena. A obra está belíssima, em uma edição caprichada. Mas também pode ser baixada na página do Instituto Barrichello.
Do Paraná ao Vale do Ribeira
Ará nasceu no Paraná e se mudou para São Paulo aos 13 anos, no fim da década de 1990. Veio acompanhada de duas primas, depois que parentes que viviam na capital visitaram sua comunidade para uma cerimônia de nomeação das crianças.
Ela viveu durante 12 anos na região do Jaraguá, na capital paulistana, onde estão as aldeias Tekoá Pyau e Tekoá Ytu. Foi ali que nasceram seus quatro filhos. Mais tarde, mudou-se para a aldeia Takuari, em Eldorado, no Vale do Ribeira, onde vive atualmente.
O casamento e a maternidade interromperam os estudos. Ará retomou a escola pela Educação de Jovens e Adultos quando estava grávida do terceiro filho. Além do tempo afastada das salas de aula, ela precisava estudar em uma língua que não era a usada em casa e na comunidade. “A língua portuguesa não é a minha língua materna. Aqui na aldeia, a gente só fala guarani”, explica.
Ará trabalhou por sete anos e meio como orientadora em um centro cultural indígena na região do Jaraguá. Depois da mudança para o Vale do Ribeira, atuou como agente comunitária de saúde e voltou a estudar.
Para concluir o ensino médio, ela e o marido saíam da aldeia às 5h30 e retornavam por volta das 18h. Em alguns dias, passavam todo o período fora sem conseguir se alimentar. Os filhos permaneciam com outras pessoas da comunidade. “Eu sabia que meus filhos estavam em boas mãos. Na aldeia, as famílias ajudam quando o outro precisa.”
Depois do ensino médio, veio o convite para trabalhar como professora na escola da aldeia. Ará decidiu então cursar Letras e, mais tarde, uma pós-graduação em Supervisão e Orientação Educacional. Sem bolsa de estudos, assumiu as mensalidades. “Paguei do meu bolso. Não ganhei bolsa para estudar. Investi em mim durante seis anos.”
A cozinha como espaço de educação
Na escola indígena, a alimentação faz parte do trabalho pedagógico de Ará. Ela organiza atividades em que mães, pais e crianças acompanham o preparo das receitas, conhecem os ingredientes e aprendem como os alimentos são cultivados, divididos e servidos.
Para ela, uma receita também registra relações familiares, práticas comunitárias e formas próprias de ensinar. “Não é só um alimento. Ali tem amor, carinho, compartilhamento. Na alimentação, você recebe uma educação também.”
Essas experiências ajudaram a definir o livro. Ará queria que as crianças Guarani tivessem acesso aos saberes de seus antepassados e, ao mesmo tempo, que pessoas de fora das aldeias conhecessem a culinária Mbya sem separá-la de sua língua e de seu contexto.
Por isso, procurou pessoas mais velhas da comunidade durante a pesquisa. Algumas receitas vieram de conversas, enquanto outras, de cenas guardadas desde a infância.
Ará se lembra da mãe e da avó socando milho no pilão, do beiju assado dentro do bambu e do mel que acompanhava o preparo. Hoje, o neto de cinco anos também gosta de beiju, embora prefira comê-lo sem mel.
O livro reúne preparos à base de milho, mandioca, amendoim, carnes, peixes, frutas, ervas e mel. Há beiju, chipa, polenta, bolinhos e bebidas tradicionais. Tudo o que os guarani pescam, criam e cultivam.
Os textos em guarani e português permitem que a publicação circule tanto nas comunidades quanto em escolas e entre leitores que ainda conhecem pouco da alimentação Mbya.
Um projeto escrito antes de encontrar apoio
Quando começou a organizar o material, Ará ainda não conhecia a equipe que publicaria o livro. Ela já havia passado anos escrevendo quando mostrou o arquivo a mulheres que participavam de uma atividade na aldeia. A partir desse encontro, foi apresentada à pesquisadora Claudia Alexandre.
Cerca de duas semanas depois, Claudia entrou em contato. Na visita da equipe à aldeia Takuari, Ará preparou bolinhos, beiju e mel para que todos provassem os alimentos sobre os quais ela havia escrito. O projeto passou então a ser desenvolvido com o Instituto Família Barrichello.
O processo não eliminou as dificuldades de escrever em português. Ará revisou o conteúdo, traduziu os textos e acompanhou a organização da publicação. O formato bilíngue manteve o guarani como parte da leitura.
A experiência de Ará com alimentos também inclui a organização de cozinhas comunitárias. Durante uma assembleia realizada na aldeia, ela dividiu o trabalho com outras mulheres para preparar refeições em diferentes cozinhas. Foram usadas panelas com capacidade para atender grupos de 40 a 60 pessoas.
Ela ainda concluiu um curso de seis meses de panificação artesanal. Aprendeu técnicas que passou a combinar com ingredientes presentes na alimentação da comunidade, em receitas como bolo de mandioca e pães temperados com alho e cebola.
Com a publicação, Ará começou a levar os preparos para oficinas e encontros em escolas. A circulação do livro amplia um trabalho que ela já realizava em sala de aula, que é apresentar a culinária como conhecimento, e não como uma lista de ingredientes retirada de seu território.
A autora também evita tratar o lançamento como uma realização individual. “Essa conquista não é só minha. Esse mérito é de todos nós, do meu povo guarani.”
Na aldeia Takuari, as lembranças da cozinha permanecem ligadas ao rio, à pesca e às plantas cultivadas ou coletadas pelas famílias. Ará pesca desde criança e se recorda dos peixes assados à margem do rio. Por isso, afirma que a preservação das receitas depende da proteção das condições que permitem prepará-las. “Sem terra, sem água, a gente não tem alimento.”
SERVIÇO
Tembi’u Guarani: Culinária Indígena
Autora, organizadora e tradutora: Ará Mirim Yvoty (Fabiana)
Coordenação geral e pesquisa: Claudia Alexandre
Realização: Instituto Família Barrichello
88 páginas, edição bilíngue, com 25 receitas e preparos
Próximas oficinas
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- 19 de setembro de 2026, às 10hCEI Ermelino MatarazzoRua Rainha do Bosque, 210, Vila Santa Inês, São Paulo
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