Regiane Canuto vai dos brigadeiros no apartamento aos bolos virais
Conheça a evolução de uma confeiteira do ABC paulista que conquistou o paladar de muitos com suas delícias artesanais
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Às cinco da manhã de um Dia das Mães, Regiane Canuto levantou, escovou os dentes e foi direto para o fogão. Havia uma fila de encomendas com hora marcada. A última cliente chegou às três da tarde.
Regiane entregou o pedido ainda de pijama, sem ter tomado café nem almoçado. Os doces saíram no horário, mas ela entendeu que aquela rotina tinha chegado ao limite.
“Meus clientes não merecem ser tratados dessa forma. Ou eu paro, ou vou tentar abrir um negócio fora de casa”, lembra. Depois de cinco anos preparando encomendas entre a cozinha, os filhos e a campainha, aquele domingo encerrou a fase doméstica da confeitaria. A sábia decisão veio do cansaço.
Regiane havia trabalhado por 15 anos com design de interiores. Em 2013, quando nasceram os gêmeos Miguel e Otávio, deixou a carreira para cuidar dos filhos. Trabalhava desde os 14 anos e logo percebeu que precisava voltar a alguma atividade profissional. “Eu precisava trabalhar, precisava fazer alguma coisa em paralelo de cuidar das crianças.”
A saída apareceu numa tendência daquela época: o brigadeiro gourmet. Regiane fez cursos, participou de oficinas e começou a testar receitas. A lembrança vem com uma pequena ironia: “Tudo era gourmet. Gourmetizaram tudo”.
Durante quase um ano, levou brigadeiros para encontros de família, festas e vizinhos. As caixas funcionavam como amostra. Quando os elogios começaram a virar pedidos, ela decidiu cobrar.
A primeira venda de cem brigadeiros mostrou que havia margem e público. A divulgação era feita pelo Facebook e por grupos locais de São Bernardo do Campo.
Regiane morava num apartamento de 50 metros quadrados, produzia na cozinha e contava com a irmã para ajudar com os bebês. Na portaria, clientes buscavam caixas de brigadeiro de pistache, chocolate belga e outros sabores oferecidos como presente.
O movimento cresceu até incomodar os vizinhos. Havia gente entrando e saindo do condomínio, pedidos esperando na portaria e reclamações sobre o uso do gás comum. Regiane chegou a organizar degustações dentro do apartamento para noivas e clientes de festas.
Quando começaram as ameaças de multa, a família alugou uma casa maior e montou um ateliê nos fundos, com fogão e geladeira exclusivos para a produção. A clientela já não cabia na cozinha de casa.
No novo espaço, os brigadeiros puxaram os bolos; os bolos levaram aos doces no pote; as fotos alimentaram o Instagram. A demanda aumentou, mas a operação continuava dependente de Regiane. Foi nesse estágio que aconteceu o Dia das Mães do pijama e do café esquecido.
Para abrir a primeira loja, ela buscou formação também fora da cozinha. Fez um plano de negócios com apoio do Sebrae. “Foi de encomenda por encomenda, brigadeiro por brigadeiro, que eu fui guardando dinheiro para abrir minha loja.”
A empresa foi formalizada em julho de 2018 e a primeira unidade abriu em setembro, no bairro Assunção, onde Regiane já era conhecida. Ela manteve o próprio nome na fachada para preservar a ligação com quem comprava seus doces em casa. “Ficou Regiane Canuto Confeitaria porque é meu nome, é minha história.”
A loja ainda aprendia a funcionar quando a pandemia fechou o salão. Regiane resistia ao delivery, já que os bolos, coberturas e montagens artesanais precisavam chegar intactos depois de buracos, freadas e curvas.
As restrições obrigaram a equipe a testar embalagens, rotas e produtos mais seguros para o transporte. “Onde eu tinha tanto medo de entrar, que era o delivery, foi o delivery que salvou a nossa empresa.”
Segundo Regiane, as vendas cresceram entre 300% e 400% durante o período de restrições. O percentual é informado por ela e não há demonstrações financeiras públicas que permitam verificá-lo. A mudança operacional permaneceu.
Hoje, o delivery representa aproximadamente 40% do negócio, somadas as plataformas e o canal próprio. Cerca de 80% do que sai para entrega vai em potes, formato mais seguro para o transporte e já reconhecido pelos clientes.
A expansão física veio depois. Em maio de 2025, a marca tinha três unidades. Em agosto, chegou a cinco. Em 2026, voltou a quatro depois que Regiane encerrou um ponto instalado dentro de outro negócio. Segundo ela, a operação não funcionou como esperava. “Não deu certo. Vamos fechar antes que dê mais errado.”
O fechamento interrompeu a sequência de inaugurações antes que uma operação ruim consumisse mais recursos. Regiane quer chegar à cidade de São Paulo e diz receber pedidos de clientes de Moema, Ipiranga, Vila Mariana e Saúde, bairros com acesso mais fácil ao ABC paulista.
Enquanto a estrutura se tornava mais complexa, um produto conhecido ganhou nova forma. Os bolos quadrados se espalharam pelas redes sociais e chegaram às vitrines de Regiane. Massas e recheios já existiam, mas o formato e a decoração foram alterados. “É o mesmo bolo que a gente sempre fez há quase dez anos. Só mudou o formato. Agora as pessoas não querem mais comprar bolo redondo. Só bolo quadrado!”
A rede social pode trocar o bolo redondo pelo quadrado em poucos dias. A cozinha precisa de embalagem, mão de obra, fornecimento e programação para acompanhar. Vieram festivais de fatias, vídeos, mensagens de outras cidades e pedidos para abrir lojas fora do ABC.
Hoje, o público quer bolo quadrado. A operação construída desde a primeira caixa de brigadeiros precisa estar sempre pronta para a próxima moda.
Ao mesmo tempo, Regiane reconhece o limite da gestão direta. “A gente tem que dar uma brecada em loja própria. Não dá para ter tanta loja, administrar isso e manter a qualidade de tudo.”
A cozinha central funciona na loja do Assunção. É ali que a produção começa do zero e se divide em etapas: uma pessoa prepara recheios, outra trabalha no forno, outra recheia os bolos, outra finaliza, enquanto uma equipe cuida dos brigadeiros, brownies e itens menores. As demais unidades recebem bases prontas e fazem montagem, acabamento, exposição e controle de validade.
Regiane tem cerca de 30 empregados diretos e aproximadamente 50 pessoas envolvidas quando entram na conta motoboys, prestadores e freelancers de fins de semana.
A setorização veio depois de uma fase em que todos faziam tudo. Hoje, estoque, compras, recursos humanos, atendimento e produção têm funções separadas. “Ao longo do tempo, a gente foi conquistando isso. Hoje, a nossa empresa é bem organizada”, diz.
Também existe cálculo na escolha do que vai para a vitrine. Regiane acompanha a previsão do tempo antes de programar a produção. Em dias quentes, reduz a aposta em sobremesas servidas com calda quente.
A oferta muda conforme a loja, a região, a sazonalidade e os dias de entrega dos fornecedores de frutas. “Seria ótimo se fosse só fazer o doce e botar na vitrine para vender.”
Ela trata alguns produtos como campeões de venda. O Copo Nutella, de 440 mililitros, combina creme de leite em pó, brigadeiro e pedaços de brownie e está no cardápio desde a abertura. O bolo da Vó Benne leva banana, canela e doce de leite. O Bombonzudo guarda morangos inteiros dentro do bolo.
Há ainda os bolos gelados de coco, embrulhados em papel-alumínio, e uma sucessão de doces no pote. Regiane parte de quatro bases de recheio e cria combinações com frutas, chocolate e limão.
A liderança aparece num episódio recente. Um cliente entrou numa loja e gritou com atendentes por causa de um item que faltou no delivery. Regiane conferiu as câmeras, telefonou para ele, devolveu o valor do produto não entregue e recusou o reembolso integral. “O senhor perdeu a razão a partir do momento em que entrou na loja para brigar com as minhas funcionárias”, disse. Ao final, foi direta: “O senhor não é bem-vindo na nossa loja.”
Regiane estima que as mulheres representem 95% da equipe. Depois do episódio, avisou às atendentes que elas têm autonomia para interromper situações de agressão e que não serão punidas por se proteger. “Respeito é universal. Não é porque a gente está prestando um serviço que tem que aguentar qualquer coisa.”
SERVIÇO:
Regiane Canuto Confeitaria
Assunção - Rua Nilo Peçanha, 125, Assunção, São Bernardo do Campo
Terra Nova II - Rua José D’Angelo, 360, Parque Terra Nova II, São Bernardo do Campo
Santo André - Avenida Itamarati, 214, Parque Jaçatuba, Santo André
Centro SBC - Rua Doutor Fláquer, 565, Centro, São Bernardo do Campo
Instagram: @regianecanutoconfeitaria
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