Bianca Veratti cria a Vitis Lab para ensinar sobre vinho com clareza e conteúdo autoral
Primeira mulher no Brasil a obter o Diploma WSET, ela reúne degustações, jantares, palestras, consultoria e uma newsletter própria
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Em 2023, depois de 12 anos na importadora Zahil, Bianca Veratti criou a Vitis Lab. O negócio reúne degustações temáticas, jantares harmonizados, palestras e experiências para grupos pequenos. A decisão veio depois de uma trajetória construída entre hotelaria, eventos, comunicação e formação técnica em vinhos.
Bianca formou-se em Hotelaria pelo Senac, em 1998, e trabalhou durante dez anos com eventos. Passou pelo InterContinental e pelo Renaissance e participou da inauguração do Hotel Unique. A rotina envolvia gastronomia, hospitalidade e organização de encontros, áreas que mais tarde seriam incorporadas à Vitis Lab.
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Em 2008, deixou a hotelaria e foi trabalhar na área de eventos do Banco Votorantim, com os clientes do Private Banking. O banco organizava jantares enogastronômicos e degustações conduzidas por Jorge Lucki e, posteriormente, por Guilherme Corrêa. Bianca cuidava da operação e acompanhava as apresentações.
Foi nesse período que o vinho deixou de ser apenas um interesse. Ao mesmo tempo, o ambiente financeiro a desgastava. Nos eventos, ela reencontrava elementos da hotelaria que valorizava, como a troca com as pessoas e o acolhimento.
“O vinho era algo que me resgatava”, afirma.
Lucki e Corrêa recomendaram que ela entrasse no setor com formação técnica. Ainda no banco, Bianca concluiu os níveis 1 e 2 do Wine & Spirit Education Trust, o WSET. Depois, fez a formação da Associazione Italiana Sommelier, cuja etapa final ocorreu no Piemonte.
Ela tem o certificado de sommelière, mas evita apresentar-se como alguém que exerceu a função. Para Bianca, o trabalho exige experiência em serviço, atendimento e administração de adega, atividades que não fizeram parte de sua carreira. Sua atuação se desenvolveu em comunicação, educação e conteúdo técnico.
Com essa formação, conseguiu uma vaga na Zahil. Passou os primeiros nove meses atendendo clientes na loja da importadora. Depois, foi chamada para trabalhar na área técnica e de comunicação.
Bianca preparava materiais sobre os vinhos, catálogos comerciais e conteúdos para o site, o blog e as redes sociais. A passagem pela loja ajudou a entender as necessidades da equipe comercial, embora ela já soubesse que não pretendia construir a carreira em vendas.
Durante os 12 anos na empresa, também continuou estudando. Em 2013, iniciou o Diploma WSET em Londres, quando a formação ainda não era oferecida no Brasil.
Por dois anos, viajou quatro vezes por ano para acompanhar as aulas e fazer as provas dos seis módulos. Acordava antes do trabalho para estudar, dedicava os fins de semana à formação e organizava degustações para praticar. Foi aprovada em todos os módulos.
Em 2016, tornou-se a primeira mulher no Brasil a obter a qualificação. Bianca diz que não começou o curso com esse objetivo. Só perto da última prova percebeu que poderia alcançar a marca. Cinco homens brasileiros já tinham o diploma. Ela foi a sexta pessoa do país a concluir o percurso.
O trabalho na Zahil permitiu que Bianca aprofundasse o conhecimento sobre o mercado, mas também impunha os limites próprios de uma importadora. Sua comunicação precisava se concentrar nos rótulos selecionados pela empresa.
Depois de 12 anos, ela queria conhecer outros produtores, tratar de regiões que não faziam parte daquele portfólio e desenvolver uma interpretação própria sobre o vinho. Também não pretendia deixar a Zahil para trabalhar em outra importadora.
“Eu queria dar a minha voz, fazer a minha interpretação do vinho e ter acesso a outras coisas”, diz.
A pandemia adiou a mudança. Em 2022, Bianca decidiu encerrar o ciclo. Procurou sair sem romper a relação com a empresa que havia apoiado sua formação e financiado o Diploma WSET.
Na criação da Vitis Lab, ela descartou dois modelos: a loja de vinhos e a escola tradicional. Bianca já havia percebido que a oferta de cursos para iniciantes tinha crescido, com escolas, importadoras, supermercados, influenciadores e plataformas digitais.
O público que acompanhava seu trabalho também não era formado principalmente por iniciantes. Eram consumidores que já tinham algum conhecimento e procuravam encontros que fossem além de fermentação, serviço e descrição de uvas.
Bianca passou a trabalhar com terroir, história, cultura, produtores e diferentes formas de interpretar o vinho.
“É aqui que me encaixo. Este é o meu nicho”, afirma.
Hoje, a programação da Vitis Lab é formada principalmente por degustações temáticas e pelas Noites de Hedonismo, jantares harmonizados realizados em um único encontro. Bianca também conduz experiências privadas e desenvolve atividades para importadoras, empresas e eventos externos.
Nos ateliês, o tema e o custo ficam concentrados em uma sessão. O participante pode aprofundar um assunto sem procurar uma certificação ou assumir o compromisso de acompanhar uma sequência de aulas.
“Financeiramente, vale mais a pena fazer ateliês fechados em si mesmos”, explica.
Em paralelo à programação da Vitis Lab, Bianca realiza palestras, degustações corporativas e apresentações para importadoras. A própria Zahil voltou a contratá-la para falar sobre um produtor do Oregon. Ela também passou a participar do Vinhos de Portugal em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Bianca mantém contato com antigos alunos por meio de um mailing. Segundo ela, algumas pessoas escrevem durante viagens para contar quais vinhos estão conhecendo ou compartilhar uma experiência. Ela define essa relação como uma comunidade formada em torno das aulas e degustações.
A próxima frente é uma newsletter no Substack. Bianca também reorganizou sua presença profissional para reunir o trabalho da Vitis Lab, as palestras, a consultoria, os projetos externos e sua produção como comunicadora.
A proposta é publicar textos quinzenais sobre história e cultura do vinho, regiões produtoras, vinhedos, personagens, experiências e assuntos que despertem sua curiosidade.
A newsletter não deve funcionar apenas como agenda de eventos ou canal de divulgação da Vitis Lab. Bianca diz que pretende escrever textos mais próximos de uma coluna, com interpretação e seleção própria de assuntos.
“Não quero uma publicação apenas no estilo repórter, que relata: ‘Fui ao lançamento de tal coisa’. Quero algo mais próximo de uma coluna, com interpretação, minha visão sobre tendências e sobre o que está acontecendo.”
Bianca cita Jane Anson, Jasper Morris, Jancis Robinson e Hugh Johnson como referências. Segundo ela, são profissionais que construíram a carreira com base na autonomia e na independência.
“É isso que eu quero ter como meu legado”, afirma.
Ela apresenta a newsletter como o próximo passo de sua atuação como comunicadora. O objetivo é publicar com regularidade e usar esse trabalho para ampliar as oportunidades em palestras, degustações e consultorias.
“Quando você constrói uma reputação sólida, atrai formas de trabalho que valorizam a independência e a própria reputação”, diz.
A busca por independência também explica a decisão de não vender vinhos. Bianca reconhece que outros profissionais adotam esse modelo, mas não quer associar sua curadoria à necessidade de comercializar determinados rótulos.
“Quero ter a liberdade de escolher o que quiser. Quero que meu cliente e quem me segue tenha a certeza de que não estou indicando um vinho porque estou ganhando algo com isso”, afirma.
Essa visão também orienta os temas que pretende desenvolver na newsletter. Bianca quer tratar o vinho como produto agrícola, ligado à terra, ao trabalho de quem o produz e à história de uma região.
Para ela, parte da comunicação sobre vinho privilegia informações técnicas, pontuações e processos de produção, mas deixa em segundo plano as pessoas, os lugares e a experiência de beber.
“O foco da newsletter também é trazer o vinho como partilha, como algo mais pessoal, mais sensorial do que apenas os dados técnicos ao redor”, afirma. “Essa é a minha bandeira: o vinho como partilha e cultura, algo maior do que o álcool.”
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