Margareth Rocha leva o Rappanui da sala de casa aos megashows
Professora começa com festas infantis para complementar a renda e constrói com a família o bufê que atende áreas VIP nos shows de Copacabana
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Margareth Rocha fritava coxinhas na sala e usava todos os móveis da casa para colocar os tabuleiros. No quintal, um toldo aumentava o espaço disponível para trabalhar. A casa acomodava os filhos e a produção do negócio que ela começava com Ricardo Pires, seu sócio na época.
Ela era professora e precisava complementar a renda. Ele havia perdido o próprio negócio. “Se as pessoas têm um real para montar um negócio, a gente tinha menos um”, lembra a chef Margareth Rocha, que lembra do início do Rappanui Gastronomia em 2004.
Veja Também
O dinheiro que sobrava de cada trabalho ajudava a pagar a alimentação dos filhos naquela semana. Margareth queria estruturar um bufê para eventos sociais, com cardápios mais elaborados, mas ainda precisava produzir com o espaço e os equipamentos que tinha.
As crianças cresciam acompanhando o trabalho. Ela se recorda das noites sem dormir e de uma dificuldade que a proximidade física não resolvia: mesmo com os filhos dentro de casa, faltava tempo para lhes dar a atenção que desejava. Nesse processo, Margareth e Ricardo se casaram.
O Rappanui chegou aos casamentos e às formaturas, participou de operações no Rock in Rio e em camarotes da Sapucaí e assumiu a alimentação de áreas VIP nos shows de Madonna, Lady Gaga e Shakira, em Copacabana.
A primeira encomenda, porém, foi uma festa da própria família. Margareth fez a decoração do aniversário da filha, gostou da atividade e começou a trabalhar com festas infantis. Como professora, tinha familiaridade com trabalhos manuais.
A comida entrou aos poucos, apoiada no que aprendera com a mãe e a avó. Preparava pequenas encomendas, vendia e assumia novos eventos conforme os pedidos apareciam. A ideia de abrir um bufê veio depois, quando já conhecia parte daquela rotina.
O movimento das festas também a atraía. Gostava de resolver os problemas que surgiam, acompanhar a preparação e ver os convidados aproveitarem o encontro, embora ressalve que os bastidores nem sempre fossem tão felizes quanto a comemoração.
Nessa época, recebeu um convite para assumir o café do Teatro Municipal de Niterói, onde permaneceu por dois anos. Naquele período, trabalhava principalmente em atividades ligadas à prefeitura e atendia poucos eventos sociais. O café foi o precursor do Rappanui.
Ricardo passou a ajudá-la no segundo ano dessa experiência. Os dois se conheciam desde a adolescência, haviam se casado com outras pessoas e mantido contato.
Margareth já tinha organizado aniversários das filhas dele e o casamento de sua irmã. Depois das separações, a convivência aumentou. Quando ela sofreu um acidente e precisou de ajuda para continuar atendendo os eventos, ele se aproximou mais. O relacionamento começou em meio à rotina de trabalho que depois dividiriam como sócios.
O primeiro beijo do casal foi uma cena de cinema. A Kombi alugada, usada nos eventos, e o carro de Ricardo estavam atrapalhando a passagem de Margareth. Ela se recuperava de uma cirurgia, mas decidiu manobrar o carro mesmo assim. Ricardo foi reclamar porque ela não deveria dirigir. Ao sair do carro, ela tropeçou, foi amparada por ele e os dois se beijaram.
Com Ricardo na retaguarda, Margareth decidiu concentrar o trabalho nos eventos sociais. Queria atender um público de maior renda e ter liberdade para desenvolver os cardápios. A produção começou dentro de casa, aquela em que tudo servia para apoiar a produção, até que a empresa pudesse ter uma cozinha industrial e espaço para guardar os materiais utilizados nas festas.
Ricardo assumiu a frente comercial, o atendimento aos clientes e as parcerias. Margareth se dedicou à comida e à organização do serviço. O nome Rappanui veio da referência a Rapa Nui, na Ilha de Páscoa.
Margareth associa a escolha à ideia do “umbigo do mundo” e à alimentação como ligação entre mãe e filho. Essa sua interpretação pessoal mostra como ela desenvolveu uma relação umbilical com a cozinha.
“Para mim, comida é pura energia”, afirma. Ela acredita que aquilo que sente ao cozinhar chega ao prato e relaciona o trabalho à possibilidade de participar das lembranças das famílias que a contratam.
A entrada do Rappanui em eventos que exigiam grandes volumes aconteceu em duas fases. A primeira com as formaturas e, depois, a reorganização necessária para cumprir os contratos adiados durante a pandemia. Em cada uma delas, precisou rever o tamanho da equipe e a maneira de organizar a produção. E foi o delivery de cestas que fez o Rappanui perdurar.
No Dia das Mães de 2020, resolveram vender cestas de café da manhã para filhos que queriam enviar um presente sem poder encontrar a mãe pessoalmente. A expectativa inicial era de vinte encomendas. Consideraram comprar trinta caixas e acabaram encerrando os pedidos em 120 cestas. O serviço de encomendas continuou ao longo do ano, inclusive no Natal.
A formação culinária aconteceu, em boa parte, por conta própria. Margareth conta que não tinha condições de pagar uma faculdade de gastronomia. Comprava livros, assistia a programas de culinária e estudava enquanto trabalhava. Queria preparar uma comida mais elaborada e procurava maneiras de aprender com os recursos disponíveis.
Em 2018, procurou mudar a alimentação do mercado de formaturas, que carregava uma reputação de serviço pouco cuidado. Temia associar o Rappanui a esse padrão.
A negociação se concentrou em uma parte do cardápio: a ilha de frios. Segundo sua lembrança, a oferta ficava restrita a embutidos, mousse e pão. Ela queria mudar a composição e a apresentação da mesa. “Eu vou poder mudar? Se eu puder mudar, eu entro”, recorda ter dito.
A partir daí, o crescimento foi gradual e exigiu incorporar mais gente à operação. Margareth considera as formaturas uma mudança na escala da empresa, que passou a atender festas de até 4.500 pessoas.
A negociação sobre a ilha de frios foi acompanhada de outra tarefa: organizar uma produção capaz de repetir o cardápio e o serviço para milhares de convidados.
Enquanto o bufê crescia, Alana Rocha, filha de Margareth, escolhia uma profissão. Estava em dúvida entre gastronomia e nutrição. A mãe recomendou nutrição porque conhecia o desgaste da rotina de eventos e queria que a filha tivesse outra possibilidade de trabalho.
Alana se formou, continuou na empresa e começou pela confeitaria. Depois, estudou no Le Cordon Bleu e assumiu a cozinha e a produção do Rappanui. A distribuição das funções mudou conforme outros familiares entraram no negócio.
Larissa Pires, filha de Ricardo e formada em biologia, estudou confeitaria e passou a cuidar dessa área. Hugo, filho de Margareth, responde pelo marketing e pela comunicação visual.
O companheiro de Alana, que já trabalhava no financeiro, passou a participar da estratégia da empresa. Dos quatro filhos do casal, três trabalham no Rappanui, cada um com responsabilidades próprias.
Margareth se afastou da execução cotidiana da cozinha para atuar como chef executiva. Continua envolvida nas decisões de cardápio, acompanha os setores e planeja os eventos, enquanto Alana conduz a produção.
Em 2023, o Rappanui realizou 203 eventos e atendeu 60 mil pessoas. Casamentos, aniversários e formaturas continuaram fazendo parte da operação quando a empresa passou a assumir também as áreas VIP dos grandes espetáculos.
Para o show de Madonna, em 2024, a estrutura foi dimensionada para oito mil convidados em duas tendas. Foram 280 profissionais e mais de dez toneladas de insumos alimentícios. No ano seguinte, o Rappanui assumiu a alimentação de áreas VIP da apresentação de Lady Gaga para 7.200 convidados em três tendas.
Em maio de 2026, a operação para Shakira foi planejada para dez mil convidados, com 500 profissionais e duas cozinhas industriais montadas em Copacabana. Uma atenderia aos espaços de Corona e Bônus; a outra, à área Santander.
O cardápio seguiu referências colombianas e latinas da cantora, somadas à sua ascendência árabe. Entraram preparações como patacones, tacos e uma seleção de tabule, quibe cru e homus.
Ao falar das dificuldades para comandar equipes, Margareth relata situações em que sentiu sua autoridade desrespeitada por ser mulher. Trabalhava com muitos garçons homens e precisou adotar uma cobrança mais firme.
A experiência como professora reaparece nessa relação com a equipe. “Eu sempre tive muito zelo em ensinar”, afirma. Ao ensino, acrescentou firmeza na cobrança. Margareth diz que precisou desenvolver uma postura de imposição que não lhe era natural para conseguir que suas orientações fossem respeitadas durante os eventos.
A resistência também esteve dentro da família. Margareth relata ter ouvido que não conseguiria levar o negócio adiante e aconselha outras mulheres que querem empreender: “Não desista nunca”. Ela própria reconhece que a frase parece um clichê, mas a relaciona às ocasiões em que precisou trabalhar sem a confiança de pessoas próximas.
As novas frentes do Rappanui já incluem o vinho Nui. Em agosto de 2026, a linha foi anunciada em um estande do Moda Prime OFF, no Fashion Mall, em parceria com a vinícola Casa Venturini. Um café físico e uma plataforma de venda de produtos do Rappanui permanecem nos planos. Aos 62 anos, Margareth só pensa em desacelerar por volta dos 70.
✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp


















