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Aprendiz de cozinheira

Paola Tarallo prepara nova fase da Speranza sem abrir mão da história

À frente da administração da tradicional cantina e pizzaria Speranza, empresária fala sobre o desafio de atualizar a marca sem perder as raízes

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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Paola Tarallo, administradora e terceira geração da Cantina e Pizzaria Speranza
Paola Tarallo, administradora e terceira geração da Cantina e Pizzaria Speranza Divulgação

Paola Tarallo, a mulher à frente da Cantina e Pizzaria Speranza, fala de crescimento com o respeito de quem viu uma família inteira construir um negócio, atravessar décadas, ganhar reputação e também pagar o preço de uma vida dedicada ao trabalho.

Depois da pandemia, quando propostas de expansão, franquias e novas parcerias continuavam chegando, ela passou a olhar para a empresa com uma pergunta menos óbvia do que parece: crescer para onde, para quem e a que custo?


“Eu quero viver bem, eu quero manter a nossa história, eu vou lutar o máximo para manter a nossa história e fazer o meu melhor possível. Mas eu não quero me matar de trabalhar”, afirma Paola, que começou a trabalhar aos 14 anos.

Paola cresceu dentro da pizzaria, aprendeu atendimento antes de aprender marketing, foi mãe de trigêmeos, liderou a empresa quando o pai ficou muito doente e hoje conduz a gestão da casa sem romantizar a sobrecarga.


A história da Speranza começou antes dela, em Nápoles (Itália), na vinda da sua família para o Brasil, trazendo repertório, comida, forno, memória e a pizza napolitana como uma espécie de idioma.

A família chegou pelo porto de Santos, instalou-se em São Paulo e fez do Bixiga um lugar de partida. A primeira casa, na rua Treze de Maio, tornou-se uma referência de cantina e pizzaria italiana. Depois veio Moema, construída pelo pai de Paola, como continuidade de uma história.


“Eu adoro ser empresária”, diz. “Mas adoro também ser mãe, adoro também ser mulher. Então isso, para mim, está muito equilibrado na minha vida.”

Na genealogia da marca, cada geração deixou uma contribuição. Os fundadores ergueram a Speranza do Bixiga. Antonio, o pai de Paola, consolidou a casa criada pelo avô, Francesco, e construiu a filial de Moema.


A geração dela recebeu uma herança mais complexa, que é manter a tradição viva em um mercado que mudou de linguagem, de concorrência, de hábito e de velocidade.

Na infância, a rotina era organizada em torno da escola. Mas, depois da aula, havia a lição de casa e a lição que se aprendia descendo para o escritório. “E no escritório, a gente ficava lá com ele umas três, quatro horas por dia.”

O pai colocava os filhos perto da engrenagem viva da empresa. “Foi muito legal porque a gente estava o tempo todo com ele. Então a gente aprendeu muito”, relembra Paola. Nos fins de semana, os irmãos se revezavam à noite na pizzaria.

Durante a semana, também havia escala. Cada um passou por áreas diferentes. Paola circulou pelo escritório, pelas compras, pela administração. Tito se aproximou da pizzaria e da operação. Mônica se identificou mais com a cozinha. Paola, não.

“Passei por todas as áreas. A única área pela qual eu não passei, porque eu nunca me identifiquei, era a cozinha.” Hoje ela gosta de cozinhar, mas o que a atraía era a organização, a gestão, a relação com gente. “Eu falo que eu tive o melhor professor do mundo, porque ele estava sempre lá do nosso lado.”

Ele ensinava os filhos a lidar com funcionários, clientes, situações de operação e imprevistos. Ensinava, sobretudo, presença. Em uma época em que quase ninguém falava em experiência do cliente, ele já praticava isso na porta, no salão, na mesa, no jeito de receber. “Ele era o marketing da pizzaria, 100%.”

Mas uma casa tradicional também precisa aprender a falar de si. Quando a Speranza chegou aos 40 anos, por volta dos anos 2000, a família percebeu uma limitação concreta.

A casa tinha história, tinha cliente, tinha lastro, mas falava pouco. Novas pizzarias estavam chegando ao mercado, ocupando espaço, aparecendo. E Paola liderou esse reposicionamento da Speranza: marcar os 40 anos, voltar a ocupar a mídia, fazer isso sem comprometer o caixa.

Roberto Justus, que já era cliente, foi o mentor da festa e de Paola. Ele ensinou um caminho e como estruturar a festa, como pensar na divulgação, como fazer aquela data não passar em branco. “Ele me ensinou como eu deveria fazer.”

A festa dos 40 anos foi um sucesso. A casa voltou à mídia. E Paola descobriu ali um campo de atuação. Não era formada em marketing, mas conhecia a história da casa, tinha aprendido relacionamento com o pai e sabia que a Speranza precisava comunicar melhor aquilo que já era.

“De lá eu entendi qual era o setor que eu queria atuar dentro da pizzaria e assumi o marketing.” Foi um marketing de memória. Paola não precisava fabricar uma identidade artificial para a Speranza. Só precisava organizar e comunicar o que já existia: a família, a pizza napolitana, a cantina, os clientes, a história, o Bixiga, Moema, os pratos, os rituais da casa.

“Atualmente eu estou muito mais voltada para o financeiro e administrativo”, diz ela, que conta com dois gerentes no dia a dia. “E nas decisões importantes entram todos. Todos da família tomam as decisões importantes da casa.”

Essa divisão só funciona porque há confiança. Paola confia no que os irmãos fazem. Os irmãos confiam no que ela faz. Todos conversam, opinam, ajudam como podem. “A gente conseguiu equilibrar super bem a família. E, automaticamente, o equilíbrio da empresa.”

Esse equilíbrio foi testado muitas vezes. A família trabalha junta, mora perto, decide junto, discute junto. Paola reconhece que não é simples. A família, italiana, afetiva e barulhenta, também tem seus excessos. “A nossa família não é uma família fácil. É uma família que adora debater as coisas.”

A convivência intensa ensinou que, para seguir junto, cada um precisa saber onde começa e onde termina a responsabilidade do outro. Durante a pandemia, Paola passou a olhar para uma possível expansão com menos encantamento. Crescer significava também aumentar risco, desgaste e dedicação.

“Quanto mais você cresce, quando você ganha mais. Mas, quando você perde, você perde também mais.” O que ela quer, hoje, é manter a história sem ser engolida por ela.

Paola planeja trabalhar bem sem fazer do trabalho a única dimensão da existência. Preservar a casa, os funcionários antigos, os clientes, a reputação e, ao mesmo tempo, viver feliz em família. “Eu não quero passar 100% do tempo da minha vida pelo trabalho.”

Essa decisão tem raízes pessoais. Paola é mãe de trigêmeos. Na gestação, ficou de repouso absoluto praticamente a gravidez inteira. Foram meses de repouso, tentando trabalhar de casa no que era possível, numa época em que a tecnologia ainda não facilitava tanto.

Os meninos nasceram bem, com oito meses e meio. Ficaram pouco tempo em cuidados intensivos e logo estavam em casa. Mas, um mês depois, Paola já voltava à pizzaria, porque o pai estava muito doente e a família precisava se reorganizar. “Voltei a trabalhar alucinadamente.”

A vantagem, se é que se pode chamar assim, era morar em cima do escritório e da própria casa. Ela subia e descia o tempo inteiro. Quando os filhos precisavam, corria para cima. Quando o trabalho chamava, descia.

Tentava costurar maternidade, empresa, casamento, doença do pai, marketing, eventos e rotina administrativa. “Eu subia correndo, fazia o que tinha que fazer e voltava.”

Com o marido, José Carlos, que a acompanhou por anos em eventos e compromissos da casa, Paola começou a perceber que o ritmo frenético tinha custo. Paola saiu da operação noturna das casas. “Foi uma escolha que eu fiz para manter a minha vida saudável, o meu casamento e a parceria com os meus filhos.”

Na quarta geração, de seus filhos e sobrinhos, Paola mantém a mesma clareza e serenidade. Alguns se aproximam do trabalho na Speranza, outros seguem fora. Paola não força a entrada de ninguém. “Eu nunca fui a favor de entrar na empresa por entrar”, diz. “Eu não acho que filho tem que ser cabide de emprego.”

Para ela, empresa familiar não pode ser abrigo automático. Quem entra precisa agregar. Precisa entender que há uma história antes dele. “Se for para entrar na empresa, é para agregar e para fazer a coisa acontecer.”

O próximo passo de Paola é fazer andar a nova operação, uma nova Speranza com proposta mais ampla, pensada para um público que também mudou. A região recebeu novos prédios, novos moradores, novos fluxos. A marca quer continuar atendendo quem sempre atendeu, mas precisa conversar com quem está chegando.

“A ideia é renovar a proposta da marca, trazer esse novo público que está chegando e manter o público já existente.” A proposta envolve almoço, possivelmente café da manhã, café italiano, empório, produtos da casa, delivery e uma experiência integrada. “É como se a gente estivesse abrindo cinco operações dentro de uma só.”

O empório abre outro campo de possibilidades. Molhos, massas, pães em formatos menores, produtos porcionados, vinhos e parcerias entram como extensão da marca. A ideia não é abandonar a pizza, mas permitir que a história da Speranza circule de outras formas, inclusive dentro da casa do cliente.

Essa transformação é uma nova forma de continuidade. Paola e os irmãos entenderam que a contribuição da geração deles seria atualizar a marca para o mercado atual sem perder as raízes. “A gente mudou junto com o mercado”, diz. “Não necessariamente expandindo a Speranza para tudo quanto é lado.”

Em um país onde crescimento muitas vezes é medido por quantidade de unidades, a Speranza escolhe o caminho de preservar a qualidade, manter a família alinhada, atualizar a experiência e seguir reconhecível.

Essa firmeza ajuda a entender a administradora que Paola se tornou. É uma mulher que trabalha, decide, erra, ajusta, discute, recua quando precisa e escolhe onde quer colocar energia.

A trajetória da Speranza, vista por Paola, é feita de movimentos. De Nápoles a São Paulo. Do Bixiga a Moema. Do balcão familiar ao marketing. Do analógico ao digital. Da pizzaria tradicional à nova casa com empório, café, produtos e delivery.

A Speranza continua porque uma família decidiu mexer no que precisava ser mexido e proteger o que não podia se perder. Continua porque Paola e seus irmãos entenderam que tradição não é repetir o passado como peça de museu.

É fazer ajustes, escolhas e renúncias para que a história siga viva. “Eu quero manter a nossa história”, diz Paola. Um crescimento dentro da própria história, até atravessar mais uma geração.

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